sexta-feira, 2 de abril de 2010

Evangelize-me

Sou mais animal do que gente
Não sou inteligente
Nunca aprendi a ser sábio
Não conheço o Deus Santo.

Quem subiu aos céus e de lá desceu?
Quem controlou o vento em suas mãos?
Quem prendeu as águas com sua veste?
Quem estabeleceu os limites da terra?

Você sabe quem ele é?
Qual é o seu nome?
E o nome de seu filho?
Apresente-me o pai e o filho!

Quem criou Deus?
Onde ele está?
Ele é uma força ou uma pessoa?

De que lado Deus está?
Da justiça ou da injustiça?
Do oprimido ou do opressor?

Deus se escondeu?
Deus abdicou de seu poder?
Deus está morto?

Deus pode acabar com o mal?
Deus pode acabar com o sofrimento?
Deus pode acabar com a morte?

Deus sabe quem eu sou?
Deus me vê?
Deus se interessa por mim?

Quem sou?
De onde venho?
Para onde vou?

Declare-me não-inocente
Derrube por terra minha defesa
Mostre-me minha culpa.

Deus pode me perdoar?
Deus pode me salvar?
Deus pode me transformar?

Conte-me a velha história!
Com pausa e paciência
Pois quero penetrar
A altura do mistério
Que Deus me pode amar!

Conte-me a velha história!
Fale-me com doçura
Do amado Redentor
A mim que tanto sofro
Por ser um pecador!

Conte-me a velha história!
Fale-me sobre o Natal
Sobre a Sexta-feira da Paixão
Sobre o túmulo vazio
Sobre a ascensão de Jesus.

Conte-me a velha história!
Fale-me sobre a parúsia
Sobre a ressurreição dos mortos
Sobre os novos céus e terra
Sobre a plenitude da salvação!


Nota
As três primeiras estrofes são palavras de Agur, retiradas de Provérbios 30.1-4 (NTLH e NVI). A antepenúltima e a que a antecede são versos do hino “A Velha História”.

fonte: Revista ULTIMATO - Janeiro-Fevereiro 2009

quinta-feira, 25 de março de 2010

Para cima e avante!

C.S. Lewis / As Crônicas de Nárnia

"– Passei por muita grama e muitas flores e encontrei saudáveis e deleitosas árvores de todos os tipos, até que, em um lugarzinho estreito entre dois rochedos, avistei vindo ao meu encontro um enorme Leão. Tinha a velocidade do avestruz e o tamanho do elefante; sua cabeleira era como ouro puro e o brilho de seu olhar como ouro quando arde na fornalha. Era mais temível que a Montanha Ardente de Lagur, e sua beleza superava tudo que há no mundo, mesmo a rosa em botão cuja beleza supera a areia do deserto. Então prostrei-me aos seus pés, pensando: “Esta é certamente a hora da minha morte, pois o Leão (que é digno de toda a honra) bem saberá que, durante toda a minha vida, tenho servido a Tash e não a ele. No entanto, melhor é ver o Leão e depois morrer do que ser Tisroc do mundo inteiro e viver sem nunca havê-lo encontrado.” Porém, o glorioso ser inclinou a cabeça dourada e me tocou a testa com a língua, dizendo: “Filho, sê bem-vindo!” Mas eu repliquei: “Ai de mim, Senhor! Não sou filho teu, mas, sim, um servo de Tash!” “Criança”, continuou ele, “todo o serviço que tens prestado a Tash, eu o considero como serviço prestado a mim.” Então, tão grande era o meu anseio por sabedoria e conhecimento, que venci o temor e resolvi indagar o glorioso ser: “Senhor, é verdade, então, como disse o macaco, que tu e Tash sois um só?” O Leão deu um rugido tão forte que a terra tremeu (sua ira, porém, não era contra mim), dizendo: “É mentira! Não porque ele e eu sejamos um, mas por sermos o oposto um do outro é que tomo para mim os serviços que tens prestado a ele. Pois eu e ele somos tão diferentes, que nenhum serviço que seja vil pode ser prestado a mim, e nada que não seja vil pode ser feito para ele. Portanto, se qualquer homem jurar em nome de Tash e guardar o juramento por amor a sua palavra, na verdade jurou em meu nome, mesmo sem saber, e eu é que o recompensarei. E se algum homem cometer alguma crueldade em meu nome, então, embora tenha pronunciado o nome de Aslam, é a Tash que está servindo, e é Tash quem aceita suas obras. Compreendes isto, filho meu?” Eu respondi: “Senhor, tu sabes o quanto eu compreendo.” E, constrangido pela verdade, acrescentei: “Mesmo assim, tenho aspirado por Tash todos os dias da minha vida.” “Amado”, falou o glorioso ser, “não fora o teu anseio por mim, não terias aspirado tão intensamente, nem por tanto tempo. Pois todos encontram o que realmente procuram.”
– Depois ele soprou sobre mim e fez cessar todo o tremor do meu corpo, firmando-me outra vez sobre os meus pés. Após isso, não disse mais muita coisa, a não ser que voltaríamos a nos encontrar e que eu deveria seguir sempre para a frente e sempre para cima. Então voltou-se como uma tempestuosa rajada de ouro e subitamente desapareceu.
– E desde então, ó reis e damas, ando perambulando à procura dele, e minha felicidade é tão imensa que até me enfraquece como uma ferida. E a maravilha das maravilhas é ter ele me chamado de amado – a mim, que não passo de um cão..."


Diálogo do calormano Elmeth aos reis e rainhas de Nárnia.


As Crônicas de Nárnia, Vol. VII - A Última Batalha. Ed. Martins Fontes, 2002; pág. 92, 93.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O amor é filme

Lirinha

O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica


Um belo dia a a gente acorda e hum...
Um filme passou por a gente e parece que já se anunciou o episódio dois
É quando a gente sente o amor se abuletar na gente tudo acabou bem,
Agora o que vem depois

O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica

É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos
E o mundo todo vira nós dois,
Dois corações bandidos
Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
O Zoom in dá ré e sobem os créditos

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tecendo a manhã

João Cabral de Melo Neto

1


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


(A Educação pela Pedra)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Retiro


Faz dez anos que eu vou ao retiro ininterruptamente, desde que me converti (com excessão do 1º ano em que minha mãe não me deixou ir, pois não confiava em mim completamente), no entanto, nesse ano os meus planos eram de não ir, meu sogro está se restabelecendo de uma doença e iríamos ficar com ele ( meu marido e eu). Ficamos em Arraial do Cabo na casa da irmã do meu sogro, no 1º dia o meu sogro revelou a todos nós que iria à Cascata ( o lugar em que nossa igreja se retira), não gostei da ideia, pois tinha feito os meus planos todos para ficar em Arraial. Fomos segunda, dia 15 para Cascata, fomos muito bem recebidos, mal deixei as malas recebi o convite para ir na cachoeira... E assim foi nos outros dias, muita alegria, comunhão, unidade...
Na verdade em Arraial não estava me sentindo integrada; muito samba, axé, muita gente...
Tudo estava entupido, as praias então... Já não sou muito fã de água salgada...
Chegando em Cascata realmente me senti em família... Só quando cheguei em Cascata é que pude perceber o quanto necessito da minha família em Cristo e o quanto eles são importantes para mim... Cada um na sua singularidade...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A idade de ser feliz

Mário Quintana

Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
(...)
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Cruzes existem em abundância: quando a doutrina da cruz será pregada?

Henry Martyn (1805)

O mar estava muito bonito, como se fosse cenário romântico. A cidade lembra Funchal (capital da ilha da Madeira). Nas ruas, homens negros, com visível desagrado, carregavam pipas de madeira, e mulheres negras carregavam peixes, frutos etc. As coisas expostas à venda eram tartarugas, bananas, laranjas, limões, melões, mamões, tamarindos.

Subi a uma elevação e vi um homem parado ao lado do caminho, segurando o pedaço de um prato de prata, de formato oval. Ele recitava algumas palavras sobre Santo Antonio. Alguns dos que passavam beijavam o objeto que ele segurava, enquanto outros apenas tiravam seus chapéus para ele. Tive a impressão de que o próprio homem parecia ridicularizar o ato insensato dos transeuntes em relação ao objeto.

Em certa igreja, a missa estava sendo celebrada. Não era tão esplêndida como as celebradas em Madeira. Muitos dos padres eram negros. Do lado de fora dava para ver toda a bonita baía. Foi quando me lembrei do hino “Oh, tristes morros de escuridão”. Então eu disse para os meus botões: “Que feliz missionário será enviado para proclamar o nome de Jesus a estas regiões ocidentais? Quando será que esta linda terra se libertará da idolatria e do cristianismo espúrio? Cruzes existem em abundância, mas quando a doutrina da cruz será pregada?”.

Continuei meu caminho em busca de um tronco de árvore no qual pudesse me assentar. Finalmente, cheguei a uma magnífica varanda. O portão estava aberto e eu fui entrando. Quando percebi que o caminho me levava a uma casa, virei à esquerda e me encontrei dentro de um pomar. Ao ver que alguns escravos me observavam, resolvi me dirigir à entrada da casa. Lá encontrei um homem muito receptivo. Pouco depois, chegaram um jovem e uma jovem, ambos muito acolhedores. Ao saber que eu havia estudado em Cambridge, o rapaz, que havia sido educado numa universidade portuguesa, tornou-se mais receptivo ainda. Tivemos uma boa conversa e fizemos um bom passeio pela fazenda dele. Conversei com ele em francês e latim. A família me convidou a voltar quando bem o desejasse.

Voltei à fazenda de Antonio José Corre. Ele me recebeu com a mesma cordialidade, ainda que nos tivéssemos conhecido há tão pouco tempo. Provei alguns pratos típicos, vi muitas árvores frutíferas e os escravos trabalhando. Fiz um passeio com ele pela cidade. Visitamos o monastério dos carmelitas. Vi Antonio José fazer o sinal da cruz nele mesmo. Fiquei surpreso, mas não falei nada. Ali me encontrei com um padre. Como era a primeira vez que eu estava na companhia de um sacerdote católico romano, falei com ele em latim. Porém, ele me pareceu embaraçado, vermelho de vergonha, e disse que não falava latim. Fiquei triste por tê-lo colocado sem querer em uma situação difícil.
No quarto em que me hospedei na casa de Antonio José, um escravo lavou meus pés. Fiquei impressionado com o grau de humildade expresso nesse ato. Enquanto ele segurava meus pés na toalha, com sua cabeça inclinada para baixo, eu me lembrei do Senhor e orei: “Que eu tenha a graça de imitar diante de ti a humildade desse escravo”.

Num desses passeios, passamos por uma pequena igreja, cujo terreno era cercado por paredes. Naquela área eram queimados os cadáveres que vinham de um hospital próximo, todos vítimas de uma doença de pele chamada “morfeia”. O que é essa doença, não consegui descobrir. Na igreja, todos os três que estavam comigo fizeram o sinal da cruz em si mesmos. Eu não disse nada. Mas a partir disso, uma conversação começou entre nós, sobretudo porque o senhor José Antonio mencionou a eles minha objeção àquele gesto. O major que nos acompanhava argumentou com muita veemência. Antonio José atuou como intérprete. Baseando-me continuamente nas Escrituras, dei imediatas respostas. O velho major acabou me abraçando à maneira de seu país. José Antonio aproveitou para dizer que, em secreto, para não contrariar o pai, ele orava só a Deus e não aos santos. De minha parte, esperava mais da parte dele: era mais a confissão de uma mente liberal do que de uma mente religiosa.

Logo depois, vimos uma procissão de padres. Dois dos que estavam comigo se ajoelharam até a procissão passar. Como Antonio José disse que “se conformava com os costumes do país em suas coisas não muito significantes”, falei para ele que, se eu tivesse nascido português, preferiria, a exemplo dos reformadores ingleses, ser levado para a prisão ou para a fogueira, em vez de me conformar com a idolatria. Ao mesmo tempo, mencionei para ele a doutrina do “novo nascimento”. Mas ele não parecia prestar muita atenção. Quando Antonio José me perguntou se nossos soldados tinham um ministro para atendê-los em seus últimos momentos de vida, para instruí-los e consolá-los, foi a minha vez de corar de vergonha. Não soube explicar tão grande negligência entre os protestantes.

Nessa mesma ocasião, encontrei-me com um franciscano e me dirigi a ele em latim. A língua não foi embaraço nem para ele nem para mim. A certa altura, pedi a ele que me provasse pelas Escrituras as doutrinas do purgatório e da transubstanciação, bem como as questões das imagens e da supremacia do Papa. Os argumentos dele foram extremamente fracos e o Senhor me deu reposta para cada um deles. Durante nossa conversa, dois ou três outros religiosos do hospital se juntaram a nós e passaram a participar da nossa disputa. Um grande grupo de outros religiosos, passando pelo lado oposto ao nosso, acenou para eles e pediu que encerrassem a discussão, o que eles fizeram levando-me para uma sala mais retirada. Então conversamos muito. Eles pareceram surpresos com meus conhecimentos das Escrituras. Um deles, o que falava francês e também quem melhor falava latim, ficou muito bravo durante a disputa. Era sem dúvida o mais sincero de todos. Eles me perguntaram quando eu poderia voltar, para que me esperassem.

Demorei tanto em terra que perdi o barco de volta para navio. Tive de retornar à casa de Antonio José, onde fui muito bem recebido e onde também me ensinaram algumas palavra em português.

Quando me despedi da casa do senhor português, o pobre escravo Raimundo, que cuidou de mim e carregou minhas malas, começou a chorar. Enquanto eu me ia, ele veio para beijar meus pés. Mas eu lhe dei as mãos e nos despedimos de mãos dadas. Fui embora muito impressionado com a gentileza de pessoas para as quais eu era um completo estranho apenas poucos dias atrás. Sou agradecido a Deus por essa tão grande misericórdia.

Em meu caminho, encontrei um jovem padre franciscano com o qual conversei em latim. Quando eu lhe disse que em nenhuma parte das Escrituras era dito que se deveria adorar a Virgem, ele ficou vermelho e falou em voz baixa: “Verum est”.

No monastério, voltei a me encontrar com os mesmos quatro religiosos com os quais eu havia tido uma longa conversa. Depois de me dar guloseimas para comer, retomamos a disputa anterior. Eles tinham queixas de mim e eu deles. Fui embora dali muito triste ao ver como o evangelho pode ter tão pouco ou até mesmo nenhum efeito sobre eles. Este sentimento de tristeza não diminuiu quando eu cheguei no navio. Os tripulantes muçulmanos, vestidos em branco, cantavam hinos em honra a Maomé para comemorar a Hégira (a viagem de Maomé de Meca a Medina, no ano 622 depois de Cristo). Aqui estava outra abominação.

Um deles assentou-se ao meu lado e tivemos uma longe conversa. Depois, fui embora e clamei a Deus que interferisse em favor de seu evangelho.

No curso de uma hora, eu havia visto três chocantes exemplos do reino e poder de Satanás, na religião do papa, de Maomé e do próprio homem. Nunca antes eu havia percebido o quanto eu não era nada. Todos os meus claros argumentos não servem para nada. A menos que o Senhor estenda suas mãos, eu falo para pedras. O que eu senti, no entanto, não foi desencorajamento; simplesmente vi a necessidade da dependência de Deus!


(Adaptado de “Life and Letters of the Rev. Henry Martyn”, de John Sargent, publicado em Londres em 1862)


Fonte: Ultimato Janeiro/Fevereiro 2010