segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Arminianismo ou Calvinismo?

Calvinismo versus Arminianismo
Tipo: Esboços e estudos bíblicos / Autor: Administração do site atosdois.com.br

Calvinismo versus Arminianismo

O termo Calvinismo é dado ao sistema teológico exposto e defendido por João Calvino (1509-1564). Seu sistema de interpretação bíblica pode ser resumido em cinco pontos, conhecidos como "os 5 pontos do Calvinismo" (TULIP em inglês):
1 - Total Depravity (Depravação total) - Todos os homens nascem totalmente depravados, incapazes de se salvar ou de escolher o bem em questões espirituais;

2 - Unconditional Election (Eleição incondicional) - Deus escolheu dentre todos os seres humanos decaídos um grande número de pecadores por graça pura, sem levar em conta qualquer mérito, obra ou fé prevista neles;

3 - Limited Atonement (Expiação limitada) - Jesus Cristo morreu na cruz para pagar o preço do resgate somente dos eleitos;

4 - Irresistible Grace - (Graça Irresistível) - A Graça de Deus é irresistível para os eleitos, isto é, o Espírito Santo acaba convencendo e infundindo a fé salvadora neles;

5 - Perseverance of Saints (Perseverança dos Santos) - Todos os eleitos vão perseverar na fé até o fim e chegar ao céu. Nenhum perderá a salvação.

O Arminianismo é o sistema de Teologia formulado por Jacobus Arminius (1560-1609), teólogo da Igreja holandesa, que resolveu refutar o sistema de Calvino.

Armínio apresentou seu sistema em 5 pontos:

1 - Capacidade humana, Livre-arbítrio - Todos os homens embora sejam pecadores, ainda são livres para aceitar ou recusar a salvação que Deus oferece;

2 - Eleição condicional - Deus elegeu os homens que ele previu que teriam fé em Cristo;

3 - Expiação ilimitada - Cristo morreu por todos os homens e não somente pelos eleitos;

4 - Graça resistível - Os homens podem resistir à Graça de Deus para não serem salvos;

5 - Decair da Graça - Homens salvos podem perder a salvação caso não perseverem na fé até o fim.

Então, o que vocês acham?

Eu, concordo com o Armínio...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O pastor das crianças



Charles Haddon Spurgeon


Simão Pedro não era galês, mas tinha muito do que chamamos de fogo galês dentro de si. Era exatamente o tipo de homem que a criançada achava interessante. As crianças acham o máximo reunir-se em volta de um fogo, seja na lareira ou no coração. Certas pessoas parecem ser formadas de gelo, e dessas crianças logo fogem: as congregações ou classes se tornam menores a cada domingo quando criaturas frias e insensíveis têm a autoridade sobre eles. Mas quando um homem ou mulher tem um coração bondoso, as crianças parecem se reunir prontamente, como moscas em dias de outono se agregam num muro quente ensolarado. Por isso, Jesus diz a Simão, o de coração caloroso: "Cuide de meus cordeiros." Ele é o homem para a posição.

Simão Pedro era, além disso, um homem experimentado. Conheceu sua própria fraqueza; tinha sentido as pontadas de consciência; tinha pecado muito e sido muito perdoado, e agora foi levado em terna humildade a confessar o amor e amabilidade de Jesus. Queremos homens e mulheres experimentados para falar com crianças convertidas, e para contar-lhes o que o Senhor já fez por eles, e quais foram seus perigos, seus pecados, suas tristezas e seus consolos. Os novos se alegram ao ouvir a história daqueles que já foram mais longe na estrada do que eles. Posso dizer dos santos experimentados: seus lábios guardam conhecimento. A experiência contada com amor é alimento apropriado para jovens crentes, instrução que o Senhor certamente abençoará na nutrição deles na graça.

Simão Pedro era agora um grande devedor. Devia muito a Jesus Cristo, de acordo com aquela regra do reino — ama muito aquele a quem muito foi perdoado. Ah, você que nunca entrou nesse trabalho para Cristo, mas realmente poderia fazê-lo bem, apresente-se imediatamente e diga: "Eu deixei esse trabalho para mãos mais jovens, mas não farei mais isso. Eu tenho experiência e confio que ainda tenha um coração quente em meu peito. Irei e me unirei a esses trabalhadores que estão ocupados com a alimentação dos cordeiros em nome do Senhor."

Quando o Senhor chama um homem para um trabalho, ele lhe dá o preparo necessário para isso. Como Pedro foi preparado para alimentar os cordeiros de Cristo? Primeiro, sendo alimentado ele mesmo. O Senhor lhe deu uma alimentação antes de lhe dar uma comissão. Você não pode alimentar cordeiros, nem ovelhas, a não ser que tenha sido alimentado. É muito certo você estar ocupado instruindo em grande parte do dia do Senhor; mas um professor é muito insensato se não for ouvir o evangelho pregado e receber uma refeição para sua própria alma. Primeiro, deve ser alimentado e depois alimentar.

Mas Pedro foi especialmente preparado para alimentar os cordeiros por estar com seu Mestre. Ele nunca haveria de esquecer aquela manhã e todos os detalhes que aconteceram. Foi a voz de Cristo que ele ouviu; foi o olhar de Cristo que o atingiu no coração; ele respirou o ar que envolveu o Senhor ressuscitado, e essa comunhão com Jesus perfumou o coração de Pedro e afinou a sua fala para que pudesse sair e alimentar os cordeiros. Eu lhes recomendo o estudo de livros instrutivos, mas, sobretudo, lhes recomendo o estudo de Cristo. Que ele seja sua biblioteca. Chegue pertinho de Jesus. Uma hora de comunhão com Jesus é o melhor preparo para lecionar os novos ou os velhos.

Pedro também foi preparado de um modo mais doloroso do que esse, isto é, pelo auto-exame. A pergunta lhe veio três vezes seguidas: "Simão, filho de Jonas, tu me amas? Tu me amas? Tu me amas?" Muitas vezes, o recipiente precisa de ser areado com auto-exame antes que o Senhor possa usá-lo adequadamente para levar a água viva a sedentos. Nunca faz mal a um homem de coração sincero examinar seu próprio espírito, e ser sondado e experimentado por seu Senhor. É o hipócrita que teme a verdade que testa sua profissão; ele receia falas e meditações importunas; mas o homem genuíno quer saber com toda certeza que ele realmente ama Cristo, e por isso examina o seu interior e interroga e testa a si mesmo.

Esse exame deve ser exercitado principalmente com respeito ao nosso amor; pois o melhor preparo para ensinar os cordeiros de Cristo é o amor — amor por Jesus e por eles. Não podemos ser sacerdotes a seu favor a não ser que, como Arão, usemos seus nomes sobre nosso peito. Precisamos amar ou então não podemos abençoar. Ensinar é trabalho mal-feito quando o amor se vai; é como um ferreiro trabalhando sem fogo, ou um construtor sem argamassa. Um pastor que não ama suas ovelhas é um mercenário e não um pastor; fugirá na hora do perigo e deixará seu rebanho para o lobo. Quando não há amor não há vida; cordeiros vivos não podem ser alimentados por homens mortos. Pregamos e ensinamos o amor: nosso assunto é o amor de Deus em Cristo Jesus. Como podemos ensinar isso se nós não temos amor? Nosso alvo é criar amor no coração daqueles que ensinamos, e nutri-lo onde já existe; mas como podemos transmitir o fogo se não está aceso em nosso próprio coração? Como pode nutrir a chama aquele que tem mãos úmidas, gotejando de mundanismo e indiferença, de modo que age no coração da criança mais como um balde de água do que como uma chama de fogo? Esses cordeiros do rebanho vivem no amor de Cristo: não vão viver em nosso amor? Ele os chama seus cordeiros, e eles o são; será que nós não os amaremos por amor a ele? Foram escolhidos em amor; foram redimidos em amor; foram chamados em amor; foram lavados em amor; foram alimentados com amor, e serão guardados por amor até que cheguem aos pastos verdes do alto dos morros no céu. Você e eu estaremos fora de sintonia com o vasto maquinário do amor divino a não ser que nossa alma esteja cheia do zelo afetuoso para com o bem dos amados. O amor é o maior preparo para o ministério, quer seja exercitado na congregação ou na classe. Ame, e depois alimente. Se você ama, alimente. Se não ama, então, aguarde até que o Senhor lhe tenha vivificado, e não use sua mão não santificada nesse trabalho sagrado.

Com os fracos do rebanho, com os novos convertidos do rebanho, com as criancinhas do rebanho, nossa principal atividade é alimentar. Cada sermão, cada lição, deverá ser um sermão que alimente, e uma lição que alimente. Pouco adianta ficar à frente de todos e bater na Bíblia e exclamar "Acredite, acredite, acredite!", quando ninguém sabe o que é para ser acreditado. Não vejo utilidade nenhuma em violinos e tamborins, pois nem cordeiros nem ovelhas podem ser nutridos com orquestras de instrumentos de metal. Deve haver doutrina, doutrina sólida, sadia, evangélica para ser alimento de verdade. Quando tiver um pernil na mesa, então, deve chamar todos para a refeição com a sineta; mas essa sineta não alimenta ninguém se a comida não for servida. Conseguir que as crianças se reúnam pela manhã e pela tarde é um desperdício dos pés delas e dos seus se você não colocar diante delas a verdade salvadora e sustentadora de almas. Alimente os cordeiros; você não precisa tocar flauta para eles, nem pôr guirlandas em seu pescoço; mas alimente-os.

Dar esse alimento é trabalho humilde, despretensioso, sem ostentação. Você conhece o nome de algum pastor de ovelhas? Posso até conhecer uma ou duas pessoas que seguem essa vocação, mas nunca ouvi ninguém falar deles como sendo grandes homens; seus nomes não estão nos jornais, nem ouvimos falar deles como profissionais que entram na justiça com uma queixa, reivindicando leis para que sejam notados. Os pastores são geralmente pessoas quietas, discretas. Ao vermos um pastor, não percebemos diferença entre ele e um lavrador. Ele caminha sem reclamar durante todo o inverno e, no começo da primavera, não descansa nem de dia nem de noite porque os carneirinhos precisam dele; isso acontece ano após ano, mas ele nunca ganhará uma "insígnia imperial", nem será elevado à nobreza, embora possa ter feito um trabalho bem mais útil do que aqueles que entram flutuando para altos postos sobre seus próprios barris de chopes. Então, no caso de muito professor fiel de criancinhas, ouve-se pouco sobre ele, mas ele faz uma grande obra pela qual os tempos futuros o chamarão de bem-aventurado. Seu Mestre conhece tudo a seu respeito, e naquele dia futuro ouviremos falar dele; talvez não antes.

É trabalho cuidadoso, também, alimentar os cordeiros, pois eles não podem comer qualquer coisa, especialmente os cordeiros de Cristo. É perigoso transmitir um ensino ruim que quase envenena os pequenos crentes. Se os homens devem dar atenção ao que ouvem, devemos cuidar mais daquilo que nós ensinamos. É um trabalho cuidadoso alimentar cada cordeiro separadamente, e ensinar a cada criança a verdade que ela está mais apta a receber.

Além disso, é trabalho contínuo. "Alimente meus cordeiros" não é uma tarefa para uma temporada, e sim para sempre. Os cordeiros não poderiam viver se o pastor só lhes alimentasse uma vez por semana. Creio que morreriam entre um domingo e outro; portanto, os bons professores dos jovenzinhos cuidam deles todos os dias da semana conforme têm oportunidade, e cuidam de suas almas com oração e exemplo santo quando não os estão ensinando com a palavra falada. O pastoreio de carneirinhos é trabalho de todo dia, toda hora. Quando o trabalho de um pastor termina? Quantas horas por dia ele trabalha? Ele lhe dirá que no tempo em que as ovelhas dão cria ele nunca termina. Ele dorme quando pode e logo desperta para agir. É assim com aqueles que alimentam os cordeiros de Cristo; eles não descansam até que Deus salve e santifique seus caros cordeirinhos.

É também um trabalho árduo, e quem não se empenha nele terá uma conta terrível a acertar. Você pensa que a vida de um ministro é fácil? Eu lhe digo que aquele que a torna fácil, a achará bastante dura quando chegar a morte. Nada deixa um homem mais cansado do que o cuidado de almas; assim é em parte com todos que ensinam — não podem fazê-lo bem sem se entregar. A pessoa precisa estudar a lição; precisa trazer algo com carinho para sua classe: precisa instruir-se. Muitas vezes, somos bastante pressionados para encontrar assunto, e queremos saber como vamos conseguir passar pelo próximo dia do Senhor. Ninguém ousa correr para sua classe despreparado e oferecer ao Senhor aquilo que não lhe custou nada. Precisa haver trabalho se o alimento deve ser colocado sabiamente diante dos cordeiros, para que possam recebê-lo.

E tudo isso tem de ser feito com um espírito excelente; o verdadeiro pastor é uma amálgama de muitas graças preciosas. Ele é caloroso com zelo, mas não é inflamado com paixão; é bondoso, contudo, governa sua classe; ele é amoroso, mas não fecha os olhos numa piscada ao pecado; tem poder sobre os cordeiros, mas não é imperioso nem sarcástico; tem bom humor, mas não frivolidade; liberdade, mas não licenciosidade; seriedade, mas não cara fechada. Quem cuida dos cordeiros também deve ser um cordeiro; e bendito seja Deus, há um cordeiro diante do trono que cuida de todos nós, e que faz isso com mais eficácia porque ele é em todas as coisas feito como nós. O espírito pastoral é um dom raro e inestimável. Um pastor bem-sucedido ou um mestre bem-sucedido em uma escola revelará ter características especiais que o distinguem de seus pares. Um pássaro que está sentado sobre seus ovinhos, ou quando as avezinhas acabam de sair da casca, tem ali um espírito maternal, de modo que dedica toda sua vida à alimentação dos pequeninos; outros pássaros podem estar achando prazer no vôo, mas este passarinho se senta quietinho durante todo o dia e a noite e então seus únicos vôos são para providenciar alimento para os bicos abertos que parecem nunca se fartar. Uma paixão tomou conta do pássaro; e algo assim acontece com o verdadeiro ganhador de almas — ele morreria alegremente para ganhar almas; ele se consome, suplica, labuta para abençoar aqueles nos quais pôs seu coração. Se esses podem pelo menos ser salvos, ele empenharia a metade de seu céu por isso; sim, e às vezes em momentos de entusiasmo ele está disposto a trocar o céu completamente por almas ganhas e, como Paulo, poderia se desejar maldito, apenas para que eles fossem salvos. Muitos podem não entender essa bendita extravagância porque nunca a sentiram; possa o Espírito Santo trabalhar isso em nós para que atuemos como pastores verdadeiros pelos cordeiros. Este, então, é o trabalho: "Alimente meus cordeiros".


(Charles Spurgeon, Pescadores de Crianças, capítulo 4 "O pastor das crianças")

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ônix e Eu - Deus e Nós



Sob influência do filme "Marley e Eu" resolvi deixar o meu cachorro - Ônix ( um labrador preto de mais ou menos uns 30 quilos) - passear na frente da minha casa sem corrente, eu nunca tinha feito isso, ele sempre passeia com meu marido e de corrente. No início foi tranquilo, ele cheirou uns matinhos, fez xixi nuns postes, mas quando um rapaz passou ele foi cheirá-lo e o acompanhando começou a sumir da minha vista, comecei a ficar preocupada e passei a gritar o seu nome, quanto mais eu gritava mais ele se afastava. Fui atrás dele e ele já tinha virado a rua indo em direção à pista, no meio do caminho ele viu um vira-latas com 1/4 do seu tamanho e começou a cheirá-lo, só que o cachorrinho ao olhar para o meu grandão ficou tremendo de medo e saiu correndo, Ônix achando que era uma brincadeira, tipo pique-pega, saiu correndo também atrás do cachorro, o cachorro sem saída deu um salto por cima do primeiro portão que ele viu pela frente, para falar a verdade eu nunca vi um cachorrinho pular assim, parecia mais um gato, Ônix passou por baixo do portão e invadiu a casa de estranhos na sua brincadeira. Morrendo de vergonha entrei na casa da senhora e pedindo várias desculpas peguei o Ônix e o prendi, ele saiu me carregando direto para casa, nessa hora ele soube o caminho direitinho, deitou no chão e apagou de tanto cansaço, afinal a sua manhã havia sido muito animada.
Quando cheguei em casa comecei a fazer um paralelo dessa situação com o nosso relacionamento com Deus, pois ele nos deixa livres para escolhermos entre o bem e o mal, ele nos deu o livre-arbítrio, ele nos chamou para a liberdade. Ainda têm aqueles que dizem que a vida em Cristo é aprisionamento, é ficar longe das coisas "boas" da vida, é uma vida de restrições...
Para mim e creio que para milhares de pessoas a vida em Cristo é sim uma vida de liberdade, liberdade para escolher, liberdade para dizer não às coisas que não nos fazem bem, tanto para o nosso corpo, quanto para nossa vida espiritual, portanto é uma vida mais completa. É uma vida consciente; consciente dos nossos atos, consciente de quem somos, consciente de para aonde vamos, consciente de que somos peregrinos, de que a nossa pátria é o céu, mas que também enquanto estivermos aqui temos que fazer algo...

Franci

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Deus não tem netos


Em 1904 o País de Gales experimentou um avivamento marcante. Milhares de pessoas conheceram a Cristo e os resultados foram incríveis. Bares fecharam-se devido à falta de fregueses. Policiais trocaram suas armas por luvas brancas já que o crime desaparecera. Cavalos não entendiam seus donos que já não mais diziam palavras profanas. O País de Gales enviou missionários para o mundo todo.

Um desses missionários viajou para a Argentina aonde em uma das ruas conduziu um mocinho a Cristo. O nome do moço era Luiz Palau. Desde então ele tornou-se conhecido como o “Billy Graham” da América Latina. Por sua gratidão pelo missionário do País de Gales, Palau viajou para lá durante os anos 70, no intuito de expressar essa gratidão àquela nação que o ajudara a conhecer a Cristo. Mas sua descoberta foi terrível! Menos da metade de um por cento dos habitantes daquele país participavam de uma igreja. O número de divórcios era alto e o crime estava em forte ascendência. Muitas igrejas tinham sido fechadas e transformadas em bares e o rúgbi tinha substituído o cristalino, como a região nacional.

Como resultado da experiência, Palau produziu um filme chamado “God Hás Grandchildren” (Deus Não Tem Netos). A mensagem do filme é que cada geração é responsável por transmitir a fé para a próxima geração. No País de Gales, apesar da tremenda vitalidade espiritual, o impacto do cristianismo desaparecera pelos anos 70. Os pais haviam falhado em passarem sua fé aos filhos. Cada geração é responsável por passar aos filhos o Evangelho e as verdades das Escrituras.


Extraído do livro “O Seu Dinheiro”, Howard Dayton - Crown Financial Ministries

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A vida cristã normal


Watchman Nee

A nossa crucificação jamais se tornará eficaz através da nossa vontade, do nosso esforço, e sim, unicamente por aceitarmos o que o Senhor Jesus Cristo fez na Cruz. Os nossos olhos devem estar abertos à obra consumada no Calvário. Talvez você tenha procurado, antes de receber a salvação, salvar-se a si mesmo, lendo a Bíblia, orando, freqüentando a Igreja, dando ofertas. Depois, um dia, se lhe abriram os olhos e você percebeu que a plena salvação já lhe foi provida na Cruz. Você simplesmente a aceitou, agradecendo a Deus, e então seu coração foi permeado pela paz e alegria.


(Extraído do livro A vida cristã normal, Watchman Nee, Editora Fiel.)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Não impeçam as crianças




Charles Haddon Spurgeon

Há algum tempo, uma pessoa que quis, suponho eu, fazer com que sentisse minha própria insignificância, me escreveu para dizer que havia se encontrado com alguns negros que tinham lido meus sermões com grande prazer; e essa pessoa acreditava que eram muito adequados para eles. Sim, minha pregação era justamente o tipo de coisa para esses homens. O remetente nem sonhava que me dava um prazer muito sincero; pois se sou compreendido por pessoas pobres, por empregadas, por crianças, estou certo de que posso ser entendido por outros.

Ambiciono pregar ao mais humilde, ao mais simples e desprezado. Nada é mais importante do que ganhar o coração dos despretensiosos, como também ganhar o coração das crianças. As pessoas, às vezes, falam à respeito de alguém: "Ele só serve para ensinar crianças: pregador ele não é." Pois eu lhes digo, à vista de Deus, não é pregador quem não se importa com as crianças. Deveria haver pelo menos uma parte de cada sermão e culto que agradasse aos pequenos. É um erro aquilo que permite que esqueçamos disso.

Os pais também pecam quando omitem a religião da educação de seus filhos. Talvez a idéia seja que suas crianças não podem ser convertidas enquanto são crianças, e então acham o lugar onde eles estudam nos seus tenros anos inconseqüente. Mas isso não é verdade. Muitos pais esquecem-se disso até quando suas meninas e meninos estão nos últimos anos da escola. Mandam-nos para outros países, a lugares com toda sorte de perigo moral e espiritual, com a idéia de que lá poderão completar os estudos elegantemente. Em quantos casos eu vi essa instrução completada, e ela produziu moços que são consumados libertinos, e moças que só sabem flertar. Conforme se semeia, se colhe. Vamos esperar que nossos filhos conheçam o Senhor. Que desde o início combinemos com seu "ABC" o nome de Jesus. Que leiam suas primeiras lições da própria Bíblia. É notável o fato de que as crianças não aprendem a ler de nenhum outro livro tão rapidamente como do Novo Testamento; há um encanto no livro que atrai a mente infantil. Mas nunca sejamos culpados, como pais, de esquecer o treinamento religioso de nossas crianças; porque, se deixarmos isso esquecido, poderemos ser culpados do sangue de suas almas.

Outro resultado é que a conversão de crianças não é esperada em muitas de nossas igrejas e congregações. Ou seja, não se espera que as crianças sejam convertidas enquanto crianças. A teoria é que, se podemos estampar sobre a mente das crianças bons princípios que lhes possam ser úteis em anos vindouros, já fizemos o suficiente; mas converter crianças enquanto crianças e considerá-las como sendo tão crentes como adultos, é visto como absurdo. A esse suposto absurdo, eu me agarro de todo o coração. Creio que das crianças é o Reino de Deus, tanto na Terra como no céu.

Outro problema é que não se acredita na conversão de crianças. Certos indivíduos desconfiados sempre afiam seus dentes quando ouvem falar de uma criança recém convertida: querem avançar para tirar um naco dela se puderem. Insistem, corretamente, que essas crianças sejam examinadas com cuidado antes de serem batizadas e admitidas na igreja; mas estão errados em insistir que só em casos excepcionais devem ser recebidas. Concordamos com eles quanto ao cuidado a ser exercido; mas deve ser o mesmo em todos os casos, nem mais nem menos nos casos de crianças.

É muito freqüente as pessoas esperarem de meninos e meninas a mesma solenidade de comportamento de pessoas mais velhas! Seria um bem para todos nós se nunca tivéssemos deixado de ser meninos e meninas, e tivéssemos acrescentado a todas as excelências de uma criança as virtudes de um homem. Certamente, não é necessário matar a criança para fazer o santo! Os mais severos pensam que um pequeno convertido deve ficar vinte anos mais velho em um minuto. Certa vez, um indivíduo muito solene me chamou do playground e me admoestou sobre a impropriedade de eu jogar uma brincadeira de armadilha, bastão e bola com os meninos. Ele disse: "Como você pode brincar como os outros, se você é um filho de Deus?" Respondi que eu tinha a responsabilidade de conduzir as pessoas aos assentos na igreja, e fazia parte de minhas obrigações participar dos passatempos dos garotos. Meu crítico venerável achou que isso alterava bem o assunto; mas estava claro que sua visão era que um menino convertido nunca deveria brincar!

As pessoas não esperam das crianças uma conduta mais perfeita do que elas próprias demonstram? Se uma criança crente tem um acesso de raiva, ou age mal em algum caso pouco importante por esquecimento, ela é condenada na hora como sendo um pequeno hipócrita por aqueles que estão longe de ser perfeitos. Jesus diz: "Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos." Cuidado para não dizerem nenhuma palavra cruel contra seus irmãos pequenos em Cristo, suas irmãzinhas no Senhor. Jesus valoriza tanto seus preciosos cordeirinhos que ele os leva em seu seio; e eu encarrego vocês que seguem seu Senhor em todas as coisas a mostrarem ternura semelhante aos pequenos da família divina.

"Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam. Quando Jesus viu isso, ficou indignado." Ele não ficava indignado com freqüência, certamente. E quando ficou, sabemos que o caso era sério. Indignou-se por essas crianças serem empurradas para longe dele, uma vez que essa atitude era contrária ao seu pensamento sobre elas. Os discípulos fizeram mal às mães; eles repreenderam os pais por fazerem um ato materno--por fazerem, de fato, aquilo que Jesus amava que fizessem. Levavam seus pequenos a Jesus por respeito a ele; valorizavam uma bênção que viesse de suas mãos mais do que ouro; tinham certeza de que uma bênção de Deus viria, com o toque do grande Profeta. Podem ter esperado que um toque da mão de Jesus tornasse a vida de seus filhos alegre e feliz. Embora possa ter havido algo de fraqueza no pensamento dos pais, mesmo assim o Salvador não podia julgar duramente aquilo que surgiu de reverência pela sua pessoa. Por isso, ele indignou-se bastante ao pensar que aquelas boas senhoras, que quiseram prestar-lhe honra, fossem rudemente impedidas.

Fez-se também um mal às crianças. Os doces pequeninos! O que eles tinham feito para serem repreendidos por virem a Jesus? Não tencionavam atrapalhar. Pobrezinhos! Teriam caído a seus pés em amor reverente para com o Mestre de doce voz que encantava não só homens, mas crianças também, com suas palavras ternas. Os pequenos não tencionavam mal, e por que levariam a culpa?

Além disso, também havia o mal feito a ele próprio. Poderia deixar as pessoas pensando que Jesus era durão, reservado e auto-suficiente, como os rabinos. Ora, se pensassem que ele não podia condescender a crianças, teriam caluniado tristemente o bom nome de seu grande amor. Pois seu coração era um grande porto onde muitas embarcaçõezinhas poderiam ancorar. Jesus, o homem-criança, nunca esteve mais à vontade do que com crianças. Jesus, a criança santa, tinha afinidade com crianças. Seria ele representado pelos seus próprios discípulos como alguém que fecharia a porta para as crianças? Isso prejudicaria seu caráter. Portanto, entristecido pelo mal triplo que feriu mães, crianças e a si mesmo, ele ficou indignado. Qualquer coisa que fazemos para impedir uma querida criança de vir a Jesus desagrada ao nosso querido Senhor. Ele exclama: "Abram espaço. Deixe-os em paz. Que venham a mim, e não os impeçam.

"Outra coisa: isso era contrário ao seu ensino; pois ele prosseguiu para dizer: "Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele." O ensino de Cristo não era o de que existe algo em nós que nos capacita para o Reino; e que um certo número de anos poderá nos tornar capazes de receber graça. Seu ensino era todo em outra direção, ou seja, de que nós não devemos ser nada, que quanto menos somos e quanto mais fracos, melhor; pois quanto menos temos do eu, mais espaço há para a graça divina dele. Você pensa chegar a Jesus subindo a escada do saber? Desça; você se encontrará com ele ao pé dela. Pensa alcançar Jesus subindo o morro íngreme da experiência? Desça, meu caro escalador; ele está na planície. "Ah! mas quando eu for velho, então estarei preparado para Cristo." Fique onde você está, jovem; Jesus o encontra na porta da vida; você nunca esteve mais preparado para se encontrar com ele do que justamente agora. Ele nada pede de você a não ser que não seja nada, e que ele possa ser tudo em tudo para você. Este é o ensinamento dele, e mandar afastar a criança porque ela não tem isto ou aquilo é resistir abertamente à bendita doutrina da graça de Deus.

Mais uma vez, impedir os pequenos era bem contrário à prática de Jesus Cristo. Ele os fez ver isso; porque "tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou". Durante toda a sua vida, nada houve nele que se parecesse com rejeição e recusa. Ele disse verdadeiramente: "Quem vier a mim eu jamais rejeitarei." Se ele rejeitasse quaisquer pessoas por serem novas demais, o texto seria declarado falso de imediato, mas isso nunca acontecerá. Ele recebe todos que vêm a ele. Está escrito: "Este homem recebe pecadores e come com eles." Toda a sua vida poderá ser desenhada como um pastor com um cordeiro em seu seio: nunca como um pastor cruel atiçando seus cães atrás de cordeiros e tirando-os de perto, juntamente com suas mães.


(Charles Spurgeon, Pescadores de Crianças, capítulo 2 "Não impeçam as crianças")

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Nossa responsabilidade de zelar pelo evangelho



John Stott

(2 Timóteo 1:12b-18)

Deixando de lado, por enquanto, a segunda parte do versículo 12, chegamos à dupla exortação de Paulo a Timóteo, nos dois versículos seguintes: “Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste” (v.13); “guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (v.14).

Aqui Paulo se refere ao evangelho, à fé apostólica, usando duas expressões. O evangelho é tanto um padrão de sãs palavras (v. 13), como um depósito precioso (v.14).

“Sãs” palavras são palavras “saudáveis”. A expressão grega é empregada nos evangelhos nos casos de pessoas curadas por Jesus. Anteriormente eram deformes ou doentes; agora estavam bem ou “sãs”, por não ser mutilada ou enferma, mas “sadia”, ou “completa”. É o que Paulo mencionara, anteriormente, como sendo “todo o desígnio de Deus” (Atos 20:27).

Além disso, essas “sãs palavras” foram dadas por Paulo a Timóteo num “padrão”. A palavra grega aqui é hypotyposis. A Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH) traduz por “exemplo”. E o Dr. Guthrie diz que ela significa um “esboço rápido, como o faria um arquiteto, antes de lançar no papel os planos detalhados de uma construção” [15]. Neste último caso Paulo estaria sugerindo a Timóteo que ampliasse, expusesse e aplicasse o ensino apostólico. Parece-me que essa interpretação não se harmoniza com o contexto, principalmente num confronto com o versículo seguinte. A única outra ocorrência de hypotyposis no Novo Testamento encontra-se na primeira carta de Paulo a Timóteo, onde ele descreve a si mesmo como um objeto da maravilhosa misericórdia e da perfeita paciência de Cristo, como um “exemplo dos que haviam de crer nEle” (1:16).

Arndt e Gingrich, que optaram por “modelo” ou “exemplo” como sendo a tradução usual, sugerem que essa palavra é empregada mais com o sentido de “protótipo” em 1 Timóteo 1:16 e com o sentido de “padrão” em 2 Timóteo 1:13. Neste caso Paulo estaria ordenando a Timóteo que conservasse como um padrão as sãs palavras, isto é, “como um modelo de ensino sadio”, aquilo que ouvira do apóstolo. Isto certamente corresponde ao ensino geral da carta e reflete fielmente a ênfase da sentença na primeira palavra, “modelo” ou “padrão”.

Assim, o ensino de Paulo deve ser uma regra ou diretriz para Timóteo, da qual este não deve se afastar. Pelo contrário, deve obedecer a essa regra, ou melhor, deve apegar-se a ele com firmeza (eche). E assim deve proceder “na fé e no amor que há em Cristo Jesus”. Isto é, Paulo não está tão preocupado com o que Timóteo deve fazer, mas sim como o modo como ele o fará. As convicções doutrinárias de Timóteo e a instrução recebida de outros, assim como as que reteve firmemente dos ensinos de Paulo, devem ser manifestas com fé e amor. Timóteo deve procurar estas qualidades em Cristo: uma crença sincera e um amor pleno.

A fé apostólica não é somente um “padrão de sãs palavras”; é também o “bom depósito” (he kale paratheke). Ou como expressa a BLH: “as boas coisas que foram entregues a você”. Sim, o evangelho é um tesouro, depositado em custódia na igreja. Cristo o confiou a Paulo; e Paulo, por sua vez, o confiou a Timóteo.

Timóteo deveria “guardá-lo”. É precisamente o mesmo apelo que Paulo lançou no final da sua primeira carta (6:20), com a única diferença de que agora ele o chama de “bom”, literalmente “belo” depósito. O verbo (phylasso) tem o sentido de guardar algo “para que não se perca ou se danifique” (AG). É empregado com a idéia de guardar um palácio contra saqueadores, e bens contra ladrões (Lucas 11:21; Atos 22:20). Fora há hereges prontos a corromper o evangelho e desta forma roubar da igreja o inestimável tesouro que lhe foi confiado. Cabe a Timóteo colocar-se em guarda.

Deveria ele guardar o evangelho com toda a firmeza possível em vista do que acontecera em Éfeso (a capital da província romana da Ásia) e seus arredores, onde Timóteo se encontrava (v. 15). O tempo aoristo do verbo “me abandonaram” parece referir-se a um acontecimento especial. É mais provável que tenha sido o momento da segunda detenção de Paulo. As igrejas da Ásia, onde trabalhara por vários anos, tornaram-se muito dependentes dele, e talvez a prisão do apóstolo lhes tenha incutido a idéia de que a fé cristã agora estava perdida. A reação deles talvez tenha sido repudiar Paulo ou recusar-se a reconhecê-lo. De Figelo e Hermógenes nada sabemos de concreto, mas a menção de seus nomes nos indica que possivelmente eles tenham sido os cabeças da oposição. De qualquer modo, Paulo via nesse afastamento das igrejas da Ásia mais do que uma simples deserção pessoal dele; era, sim, uma rejeição à autoridade apostólica. Deve ter-lhe sido algo bastante sério, principalmente porque alguns anos antes, durante a sua permanência em Éfeso por dois anos e meio, Lucas registra que “todos os habitantes da Ásia ouviram a palavra do Senhor, e muitos creram” (Atos 19:10). Agora “os que estão na Ásia” haviam voltado as costas para Paulo. A um grande despertamento seguiu-se uma grande deserção. “A todos os olhos, menos aos da fé, deve ter parecido que o evangelho estava às vésperas da extinção” [16].

Uma grande exceção parece ter sido um homem chamado Onesíforo, o qual repetidas vezes acolhera Paulo em sua casa (literalmente “reanimou-o”, v. 16) e que, em Éfeso, prestara-lhe muitos serviços (v. 18). Onesíforo permanecera desse modo, fiel ao significado do seu nome: “portador de préstimos”. Além disso, não se envergonhara das algemas de Paulo (v. 16), o que dá a entender que não repudiou a Paulo quando preso, e que o seguiu, e mesmo o acompanhou a Roma, procurando-o até encontrá-lo no calabouço. Paulo tinha boas razões para ser grato por este amigo fiel e corajoso. Não é surpreendente, pois, que se expresse por duas vezes em oração (vs. 16, 18), primeiro por sua casa (“conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo”) e depois, especificamente, por Onesíforo (“O Senhor lhe conceda, naquele dia, achar misericórdia da parte do Senhor”).

Vários comentaristas, notadamente católicos romanos, partindo das referências à casa de Onesíforo (mencionada novamente em 4:19) e à expressão “naquele dia”, têm argumentado que Onesíforo àquela altura estava morto e que, por conseguinte, no versículo 18 temos uma oração em favor de um falecido. Isto, na verdade, não passa de uma simples e gratuita conjectura. O fato de Paulo mencionar primeiro Onesíforo e depois sua casa não dá a entender necessariamente que estejam eles separados em virtude de sua morte; é mais viável crer que fosse devido à distância: Onesíforo estava ainda em Roma, enquanto que sua família permanecia em casa, em Éfeso. “Considero que é uma oração em separado pelo homem e por sua família”, escreve o Rev. Moule, “por estarem então separados um do outro, por terras e mares... Não há necessidade alguma de interpretar que Onesíforo tivesse morrido. A separação de sua família, por uma viagem, isso é o que se depreende da passagem”. [17]Em todo o caso, todos na Ásia, como Timóteo estava bem ciente, voltaram às costas ao apóstolo, com exceção do leal Onesíforo e de sua família. Era em tal situação de apostasia quase universal que Timóteo deveria “guardar o bom depósito” e “manter o padrão das sãs palavras”, ou seja, deveria preservar o evangelho imaculado e genuíno. Já seria uma grande responsabilidade para qualquer um, quanto mais para alguém com o temperamento de Timóteo. Como poderia então permanecer firme?O apóstolo dá a Timóteo a base segura de que ele necessita. Timóteo não pode pensar em guardar o tesouro do evangelho com força própria; somente poderá fazê-lo “mediante o Espírito Santo que habita em nós” (v. 14). A mesma verdade é ensinada na segunda parte do versículo 12, que até aqui ainda não consideramos. A maior parte dos cristãos está familiarizada com a tradução “porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”. Essas palavras são verdadeiras e muitas outras passagens bíblicas as confirmam; quanto à estrutura lingüística, foram traduzidas acuradamente. De fato, tanto o verbo “guardar” como o substantivo “depósito” são precisamente as mesmas palavras no versículo 12 e no versículo 14 e ainda em 1 Timóteo 6:20. Presume-se, então, que “o meu depósito” não é o que eu lhe confiei (minha alma ou eu mesmo, como em 1 Pedro 4:19), mas aquilo que ele confiou a mim (o evangelho).

O sentido, pois, é este: Paulo podia dizer que o depósito é “meu”, porque Cristo lho confiou. Contudo, Paulo estava persuadido de que era Cristo que iria conversá-lo seguro “até aquele dia”, quando ele teria de prestar contas da sua mordomia.

Em que se baseava a sua confiança? Somente numa coisa: “eu o conheço”. Paulo conhecia a Cristo, em quem confiava, e estava convencido da capacidade dele para manter o depósito em segurança: “porque sei em quem tenho crido, e estou bem certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” (v. 12). Cristo cuidará do depósito. E agora Paulo o está confiando a Timóteo. E Timóteo pode ter esta mesma segurança.

Aqui há um estímulo muito grande. Em última análise, é Deus mesmo quem preserva o evangelho. Ele se responsabiliza por sua conservação: “Sobre qualquer outro fundamento a obra da pregação não se sustentaria nem por um momento” [18]. Podemos ver a fé evangélica encontrando oposição em toda parte, e a mensagem apostólica sendo ridicularizada. Talvez vejamos uma crescente apostasia crescer na igreja, muitos de nossa geração abandonando a fé de seus pais. Mas não temos nada a temer! Deus nunca permitirá que a luz do evangelho apague. É verdade que ele o confiou a nós, frágeis e falíveis criaturas. Ele colocou o seu tesouro em frágeis vasos de barro, e nós devemos assumir a nossa parte na guarda e na defesa da verdade. Contudo, mesmo tendo entregado o depósito aos cuidados de nossas mãos, Deus não retirou as Suas mãos desse depósito. Ele mesmo é, afinal, o Seu melhor vigia; Ele saberá preservar a verdade que confiou à Igreja. Isto nós sabemos, porque sabemos em quem depositamos a nossa confiança, e em quem continuamos a confiar.

Vimos que o evangelho é a boa nova da salvação, prometida desde a eternidade, concretizada na História por Cristo, e oferecida à fé.

A nossa primeira responsabilidade reside na comunicação do evangelho, fazendo uso de velhos métodos ou procurando novos caminhos para torná-lo conhecido por todo o mundo. Se assim procedermos, certamente sofreremos por ele, já que o autêntico evangelho nunca foi popular. Ele humilha muito o pecador.

E ao sermos chamados a sofrer pelo evangelho, somos tentados a adaptá-lo, a eliminar aqueles elementos que ofendem e provocam oposição, a silenciar as notas que ferem os sensíveis ouvidos modernos. Mas devemos resistir a esta tentação. Pois, antes de tudo, fomos chamados a guardar o evangelho, conservando-o puro, a qualquer preço, preservando-o de toda corrupção.

Guardá-lo fielmente. Difundi-lo ativamente. Sofrer corajosamente por ele. Esta é a nossa tríplice responsabilidade perante o evangelho de Deus, de acordo com este primeiro capítulo.

Notas:
[15] - Guthrie, p. 132.
[16] - Moule, p. 16.
[17] - Moule, pp. 67,68.
[18] -Barrett, p. 97.

Fonte: John Stott, A Mensagem de 2 Timóteo, Editora ABU.